O SILÊNCIO NAS REDES SOCIAIS

“Nada é mais sujeito a desentendimentos do que a troca de mensagens curtas por escrito. Falta articulação textual a quem escreve e faltam elementos de interpretação de texto a quem lê. Omitem-se pontuações, em muitos casos não há frases completas, só palavras desarticuladas, limite final para muita confusão” (Nós, pessoas em silêncio – Carla Rodrigues).

Penso exatamente assim. E não é a análise de uma revisora e professora de língua portuguesa; é a análise da Evely mesmo, o que vai tornando as redes sociais cada vez mais antissociais.

Segue o texto na íntegra:

Havia um tempo em que os críticos da invasão dos telefones celulares nas nossas vidas reclamavam, muito justamente, do ruído exagerado das conversas na mesa ao lado, da invasão de privacidade ao contrário, quando éramos obrigados a ouvir confissões íntimas alheias, ou mesmo da falta de educação de interlocutores que trocavam sem a menor cerimônia a conversa pessoal por quem estava chamando no celular (hoje, esse privilégio de quem liga já é um simulacro em aplicativos capazes de falsificar uma chamada telefônica, dando ao dono do aparelho um pretexto para se livrar do chato à sua frente).

Mas aí vieram as mensagens de texto, o primado do whatsapp sobre o telefone e o e-mail , e o falatório excessivo produzido pela primeira geração de aparelhos celulares foi sendo substituído por cenas robóticas de pessoas fixadas nas telas dos seus smartphones, andando como zumbis pelas ruas enquanto digitam, gravam ou ouvem áudios, enviam ou reenviam arquivos, fotos, contatos. Escreve-se para não chegar à intimidade da voz, que supõe um tipo de troca marcada por seus lapsos, equívocos, ruídos e interrupções. Nada é mais sujeito a desentendimentos do que a troca de mensagens curtas por escrito. Falta articulação textual a quem escreve e faltam elementos de interpretação de texto a quem lê. Omitem-se pontuações, em muitos casos não há frases completas, só palavras desarticuladas, limite final para muita confusão.

Há uma geração inteira de jovens que prefere o envio de áudios sucessivos às longas conversas telefônicas que marcaram minha adolescência, incluindo o estranho debate sobre quem desligaria o telefone primeiro. Há uma geração inteira de jovens cuja troca de textos diários pode significar relações silenciosas, pautadas mais por emojis do que por palavras, com suas subjetividades agrupadas em hashtags cuja função é a redução do sujeito a sua expressão mínima.

O modo de comunicação das mensagens curtas de texto, se não chega a definir quem somos, na prática tem modificado a forma de nos relacionarmos na vida social, familiar, afetiva e profissional. Grupos de trabalho ou de família em whatsapp podem ser fontes de estresse ou de alegrias inéditas. E não adianta, como diz o filósofo Giorgio Agamben em “O que é o dispositivo”, acreditar na ideia simplista de que basta nos protegermos no uso das ferramentas. Hoje, um milhão de pessoas trocam por dia 55 bilhões de mensagens por whatsapp, indício de uma dominância da ferramenta de difícil superação apenas no modo de uso.

É verdade que todas essas observações de tom nostálgico já foram feitas em relação a outros mecanismos que, aos poucos, se tornaram obsoletos, o que me leva a pensar que a marca do nosso tempo contemporâneo não é tanto o envio frenético de mensagens de texto, mas a obsolescência previsível dos mecanismos de relação de troca entre as pessoas. Posso encontrar por aí um caminho para pensar a constância dos discursos de “fim do mundo” com o meu sentimento de que o mundo acaba cada vez com mais frequência. Para isso, preciso tomar um conceito específico de “mundo” como um conjunto de formas de vida conhecidas e, em alguma medida, previsíveis.

A cada vez que uma nova fronteira se rompe, que um novo uso do whatsapp se atualiza na vida cotidiana, mais essa combinação entre nostalgia e fim do mundo me invade. A naturalidade da substituição de (bons) e velhos hábitos causa perplexidade, mas não apenas. Provoca principalmente esse sentimento de que todas as barreiras conhecidas são passíveis de ser transpostas. Nessa minha sucessão de nostalgias, lembro com saudade do tempo em que o tom de voz da pessoa amada transmitia algo antes mesmo que houvesse linguagem, quando um simples “alô” já me dizia quase tudo que era possível saber sobre o seu estado de espírito.  Num livro sobre o trabalho de luto em relação à perda de muitos de seus amigos, “Chaque fois la fin du monde”, o filósofo Jacques Derrida diz que a morte de cada um deles declarava, a cada vez, o fim do mundo em sua totalidade insubstituível e infinita. Perdas cotidianas vão me lembrando da perda maior, do tempo que passa, do mundo que acaba um pouco todo dia, da saudade que se transforma em nostalgia, promovendo em mim e no mundo um silêncio que ainda pode nos matar.

Fonte: Nós, pessoas em silêncio.

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